Por Malu Nunes

País com a maior biodiversidade do planeta, o Brasil possui mais de 20% do número total de espécies da Terra. É fascinante observar que as diferenças climáticas e variações ecológicas em nosso extenso território foram capazes de abrigar biomas tão diversos e generosos, com diferentes tipos de vegetação e fauna, como a Amazônia, a Caatinga, o Cerrado, a Mata Atlântica, o Pampa e o Pantanal. Além disso, temos uma costa marinha de 3,5 milhões de quilômetros quadrados, com ecossistemas extraordinários como recifes de corais, dunas, manguezais, lagoas, estuários e pântanos.

Sabemos que toda essa riqueza natural vem sofrendo pressões ao longo da nossa história, mas, felizmente, uma nova consciência ambiental está se formando no país. Diante de tantas notícias negativas que envolvem o meio ambiente no cotidiano, como desmatamento, queimadas, poluição e eventos climáticos extremos, é difícil perceber avanços em relação à conservação da natureza, mas pesquisas científicas de ponta, conhecimentos multidisciplinares aplicados em prol do bem comum e, sobretudo, modelos de negócios com impacto socioambiental positivo nos acende uma esperança de que teremos um futuro bem melhor.

Para ampliar esse movimento, no entanto, precisamos do engajamento de amplos setores da sociedade, como autoridades, empreendedores, investidores, estudantes e profissionais que atuam nas mais diversas áreas – da biologia, engenharias e gastronomia a processamento de dados, medicina e comunicação. A natureza e a biodiversidade devem estar no centro da estratégia de desenvolvimento de novos mercados, novos modelos de negócio, novos processos e métodos organizacionais, novas matérias-primas, entre outras possibilidades de inovação.

E quando falamos em inovação, ao contrário do que alguns ainda imaginam, não nos referimos apenas a aparatos tecnológicos que, por vezes, têm custos muito elevados. A sofisticação pode estar na ousadia de imaginar futuros desejáveis, na busca por um propósito maior para nossas ações e, principalmente, na cocriação de soluções para os nossos desafios atuais, integrando pessoas com diferentes saberes e experiências, conciliando o social, o ambiental e o econômico.

É interessante observar que empresas que hoje valem bilhões de dólares, que criaram nichos de mercado que antes não éramos capazes de imaginar, simplesmente não existiam cinco, dez anos atrás. Isso mostra que a criação de soluções para problemas complexos pode transformar pequenas empresas e startups em organizações de grande relevância, que podem impactar positivamente na vida de milhões de pessoas. Quando iremos inserir a natureza nessa equação de sucesso?

Existem muitos caminhos para a convivência mais harmoniosa dos seres humanos com o planeta. Um bom exemplo são novos sistemas de monitoramento de unidades de conservação, desenvolvidos em redes colaborativas entre professores e alunos universitários, que combinam tecnologias acessíveis e eficientes para fornecer aos gestores informações sobre a abundância e a distribuição de espécies em áreas públicas e privadas, além de identificar possíveis ameaças a esses espaços, como focos de incêndio e invasores. Os softwares de gestão Smart Grande Reserva e Smart Harpia, premiados pela Teia de Soluções – uma iniciativa que busca a descoberta de soluções e novos modelos de negócio para desafios ambientais, por meio da cocriação –, devem trazer ganhos para a patrulha e a fiscalização de áreas protegidas.

No turismo, um dos setores econômicos com maior capacidade de proteger o meio ambiente, o Brasil tem potencial para multiplicar os negócios inovadores de impacto socioambiental positivo. Ao atrair pessoas para conhecerem de maneira responsável as paisagens e belezas naturais do país, muitos empregos de qualidade podem ser gerados sem colocar em risco a nossa biodiversidade. Plataformas colaborativas que estimulam o turismo sustentável e o voluntariado, como os projetos das startups eTrilhas e Vivalá, também premiados na Teia de Soluções, demonstram grande possibilidade de expansão de negócios sociais conectados à natureza.

Merecem destaque ainda os empreendimentos que surgem para agregar valor aos produtos da nossa sociobiodiversidade, que podem oferecer também matérias-primas e novos saberes e sabores para o nosso cotidiano. Investir na proteção da natureza é estratégico para os negócios, para fortalecer a economia local, contribuir com o desenvolvimento sustentável do país e melhorar a saúde do planeta. De acordo com o Fórum Econômico Mundial, cerca de US$ 44 trilhões – mais da metade do PIB global – são dependentes da natureza conservada.

Em iniciativas como o Conservathon, uma maratona de inovação iniciada em 2020, praticamente no auge da pandemia, foram reunidas mentes criativas para desenvolver soluções viáveis para a conservação dos nossos biomas. Durante esse processo, ótimas ideias têm surgido para agregar valor a cadeias de produtos sustentáveis, prevenir e combater incêndios em áreas naturais, minimizar impactos à fauna e à flora e promover o turismo sustentável.

Tenho plena confiança de que com mais conhecimento científico e jornadas de cocriação, que unam interesses de gestores públicos e privados de unidades de conservação e de empreendedores e investidores conscientes de seu papel no estímulo a uma economia mais verde, poderemos potencializar o desenvolvimento socioeconômico sustentável em todos os nossos biomas.

Motivos não faltam para buscarmos soluções inovadoras que considerem a natureza como fator-chave, pois, além de gerar trabalho e renda de qualidade, já está comprovado que a proteção do meio ambiente melhora a qualidade de vida das pessoas, reduz gastos com o sistema de saúde, previne doenças e epidemias, garante a segurança hídrica e cria cidades mais resilientes para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas.