Apadrinhamento, uso desnecessário do dinheiro público e propaganda política disfarçada. Grosso modo, este foi um resumo das suposições levantadas por políticos e meios de comunicação sobre o novo “ministério da festa”. Um escândalo legalizado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 70/2021 que foi publicada neste último domingo (4).  

Para a comemoração do 25 de abril de 2024, data da realização do 50º aniversário, a Presidência do Conselho de Ministros emitiu uma resolução para a criação de uma estrutura de missão que será responsável por promover o evento.

A preparação, que levará 5 anos, 6 meses e 24 dias, é absurdamente longa para algo que ocorrerá em apenas 1 dia – pelo menos este é o sentimento de indignação veiculado nas redes sociais. Na prática, significa dizer que o “ministério da festa” terá em torno de 2 anos para preparar o 50º aniversário de 2024, e mais 3 anos, após a comemoração, para a realizar…  – Desculpe, para realiza o que mesmo?

O “ministro” designado para assumir a “pasta”, Pedro Adão e Silva, é Professor no ISCTE-IUL, colunista no Expresso e Record, comentador na RTP, TSF e Sport TV. Silva foi alvo de críticas e uniu, pelo menos no sentimento de indignação, os líderes da direita, Rui Rio (PSD) e André Ventura (CHEGA), que aparentemente estão, ou estavam, em desencontro político.

Sobre Pedro, Rui Rio destacou no twitter que “O PS tem os seus ‘comentadores independentes’ espalhados pelos diversos canais para vender a propaganda socialista e tentar destruir os adversários… mas esse trabalhinho tem um preço. Chegou a vez de Pedro Adão e Silva receber a compensação. Pagamos nós; com os nossos impostos”.

Já André Ventura, também no twitter, apontou que “Pedro Adão e Silva, esse comentador independente de coração socialista, acabou por ver recompensada a subserviência a António Costa em tantos programas televisivos. Vai presidir à Comissão do 25/4. Quem paga? Pagam os contribuintes, pois claro!”

O Jornal Editorial do Porto, ancorado por Tiago Girão, reviveu duras observações sobre o passado de Adão e Silva: “em 2017 o seu nome ficou intimamente associado a já famosa cartilha do Benfica. Um boletim informativo que o ‘clube da luz’ fazia circular semanalmente por todos os comentadores com presença nas televisões, nas rádios e nos jornais, com informação oficial, mas também com ataques a rivais, numa estratégia orgânica e concertada de guerra comunicacional que visava intoxicar o espaço midiático.” Complementa Girão: “Adão e Silva era, portanto, um dos artífices desta cartilha tendo aceitado fazer parte de uma orquestra por figuras pouco recomendadas”.

Por outro lado, no Jornal24, da TVI24HD, o também comentador semanal, Fernando Medina (PS), Presidente da CM de Lisboa e que sucedeu o atual Primeiro-Ministro, António Costa (PS), criticou Rui Rio e interveio em favor de Adão e Silva.

“Eu acho o comentário de Rui Rio absolutamente impróprio para um líder do PSD. E aliás, o padrão de Rui Rio mede-se pelo facto das declarações dele serem muito semelhantes àquelas que André Ventura Fez. Rui Rio aliás, de certa forma, copia o estilo de André Ventura relativamente a esta apreciação”, disse Medina.

Sobre Paulo Adão e Silva, comenta Fernando Medina “é um investigador respeitado, é um professor universitário, tem uma carreira própria… tem o seu espaço de opinião e de comentário político há muitos e muitos anos. Tem o seu o quadrante, a sua sensibilidade, a sua opinião.” – Tem uma ligação ao partido socialista!? Interrompeu a apresentadora do telejornal. “Não a tem ativa como militante do partido socialista, mas é uma pessoa que nunca escondeu, aliás, sua origem ideológica”, respondeu Medina.

Ainda em relação a Rio e Ventura, Medina destacou que “talvez o melhor barômetro do nível das declarações de Rui Rio é perceber que elas são exatamente iguais aquelas que o líder do CHEGA fez. E por isso, quando há uma similitude de posicionamento político entre PSD e CHEGA, eu acho que isso diz mais. Essas declarações dizem mais sob o estado político do PSD e da liderança do PSD do que dizem propriamente sobre a nomeação de Pedro Adão e Silva”.

Na última semana, o Deputado e líder do partido CHEGA, André Ventura, fez alguns pronunciamentos destacando a importância da união entre os partidos de direita para a derrota dos socialistas. Mas, através de entrevistas à programas de televisão, Ventura alerta que Rio não tem dado retorno aos apelos. Eis que agora fica a questão: seria a criação do “ministério da festa” o ponto central para a aproximação entre PSD e CHEGA?

“Na prática um gabinete ministerial. Um ministro sem pasta, mas com todas as regalias, mas sem a responsabilidade e escrutínio inerente a um membro do Governo”

Tiago Girão – Jornal Editorial do Porto

É preciso destacar que, de certa forma, Medina faz essa observação. E ela é pertinente. As declarações de Rio e Ventura sobre Adão e Silva, do ponto de vista conceitual, são idênticas (pagamos nós, os contribuintes). Estaríamos, portanto, diante de um ponto comum, de uma similitude de posicionamento político capaz de alinhar em pensamento PSD e CHEGA, como bem levanta aqui o comentador do PS?

Estrutura de Missão

Muito tem se falado de Pedro Adão e Silva, mas a questão primordial, independente do escolhido, não é ele. Mas sim a tal estrutura de missão. Segundo a resolução, além do cargo principal de Silva, que tem uma remuneração mensal de € 3.745,26, acrescidos de € 780,36 para despesas de representação, no mínimo mais 8 pessoas farão parte da “pasta”. Serão três adjuntos, três técnicos especialistas, um secretário pessoal e mais um motorista que, em tempos de crise pandêmica, ajudarão a inchar a folha de pagamento do governo.

Conforme a própria resolução, Portugal é, aliás, um caso único de um país que celebra a sua transição de regime e que o faz com uma dimensão popular. Portanto, não se questiona aqui a comemoração ao dia 25 de abril. Que a data seja comemorada! Mas, como disse Tiago Girão no Jornal Editorial do Porto, numa alusão geral sobre Pedro e a infame estrutura de missão, que não tenhamos “na prática um gabinete ministerial. Um ministro sem pasta, mas com todas as regalias, mas sem a responsabilidade e escrutínio inerente a um membro do Governo” para que isso ocorra.

Entramos em contato com Pedro Adão e Silva para que pudesse se manifestar sobre os comentários feitos em seu nome, mas até o momento desta publicação não tivemos resposta. O espaço continua aberto.

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