TITO GUARNIERE

Pelo que leio na imprensa, o dia 7 de setembro, uma data de unidade nacional, agora foi capturada pelas hordas de bolsonaristas “patriotas”. Já se apropriaram das cores da bandeira – o verde-amarelo lhes pertence, e só a eles. Agora, querem para si o dia da Independência.

Da minha parte quem quiser se vestir de patriota, que o faça. Isso não faz nenhuma diferença, para o bem ou para o mal. Há certos “patriotas” que não passam de canalhas. Mas também há muita gente que, sem estar ligada ao sentimento de pátria, entretanto cumpre seus deveres, assume responsabilidades, tem uma vida produtiva e honesta, sustenta com muito trabalho a si e às suas famílias.

A ciência não tem pátria, a bondade não tem pátria. “Minha pátria é a humanidade”.

Também não me toca muito a “independência”. Sempre foi um feriado militar, de pouca repercussão na vida civil. Não faltaram esforços e iniciativas das instituições, como as escolas, para manter viva a chama, para evocar os valores da nossa história. Mas não pegou.

De todo o modo o patriotismo, a ideia de independência, estavam ali, latentes, difusos, revestidos de algum significado. O que lhes deu a atual configuração e certa densidade foi o bolsonarismo, esse conjunto erradio de valores, princípios, se me permitem assim chamar.

O bolsonarismo se afirma patriótico, mas não diz de que pátria estamos falando. Então, nesse conceito fugidio, tudo cabe – como aconteceu com o Congresso Nacional, que já esteve na mira dos bolsonaristas. Mas agora o fogo é brando. Foi-se o tempo em que o general Augusto Heleno proclamava que “se gritar pega Centrão não fica um, meu irmão”.

O alvo predileto dos ataques agora é o Supremo Tribunal Federal. Naquele amplo acampamento de desavisados – os bolsonaristas – prevalece uma concepção mal ajambrada de democracia e de República. Assim o STF, ao invés de ser o locus institucional de proteção contra a excepcionalidade, contra o arbítrio dos governantes e dos poderosos, foi trasmudado, no confuso ideário bolsonarista, em instituição que só existe para causar dificuldades ao presidente.

O bolsonarismo, e não apenas ele, mas muita gente boa, avalia a Corte Suprema na escala de cada decisão. Se não gostam, se discordam, é porque a Corte é imprestável. Nas vezes em que a decisão favorece, os ministros não fizeram mais do que a obrigação.

O Supremo pode ser contraditório, errar aqui e ali. Mas em geral o “erro” do Tribunal não é outra coisa senão a decisão que não confere com uma particular visão de mundo. Não há juiz, e menos ainda tribunal, no sistema democrático, que a todos satisfaça.

Em todo o caso, até dias atrás dava-se como certo que o 7 de setembro seria como uma espécie de divisor de águas, e até mesmo o rastilho de fogo capaz de incendiar o Brasil. Parece que mudou o tom e desta insanidade estamos livres, pelo menos por enquanto. Menos mal.

No quadro de sanatório geral em que estamos internados, só faltava que a data da Independência se transformasse na senha para o sonho golpista, que Bolsonaro acalenta dia sim, outro também.

tito.guarniere@br.news
Twitter: @TigoGuarnieree

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *