Tito Guarniere

Na sexta-feira, o presidente Jair Messias Bolsonaro vazou todos os limites: chamou o ministro Luís Roberto Barroso de (desculpem os leitores) “filho da puta”. No sábado, disse que Barroso “quer que nossas filhas de 12 anos tenham relações sexuais”, uma mentira infame. Há uma escalada demencial no seu comportamento, nas suas falas e atitudes. Ele declarou uma guerra santa contra tudo o que, no seu desvario, acha que é inimigo.

E não há ninguém capaz de demovê-lo nas crises psicóticas, que se tornam cada vez mais frequentes e virulentas. Para que seja assim, existe apenas uma hipótese: ele acredita nas suas próprias alucinações – se houvesse um resquício de lucidez, mínimo que fosse, ele já teria moderado os ânimos e acalmado o ambiente. Mas, não. Esse homem não é de apagar incêndios, senão de jogar querosene no fogo.

Não faltam psiquiatras que afirmem que o caso de Bolsonaro é de internamento. Exagero? Já pensei assim. Mas o frenesi paranoico não arrefece: ao contrário, se agudiza. Quando alguém xinga a mãe do outro, nos termos de Bolsonaro, então é porque está à beira de uma síncope nervosa. Ele tem apneias em plena vigília.

Mas o que esperar de um homem que, ao invés da bíblia, ou de um livro, deixa uma arma na cabeceira da cama? Pode ser exagero, mas na voragem em que está mergulhado, ele é capaz de sacar a arma e atirar.

Não é necessário que ninguém o provoque. Basta que, de alguma maneira, alguém se oponha aos desígnios do seu pensamento regressivo, às suas idiossincrasias, à sua visão obnubilada do mundo.

Basta que lhe atravesse o caminho alguém que, no raciocínio doentio, esteja atrapalhando a missão, os planos.

E também não o incomoda o fato de que não exista o problema. Se não existir, ele cria, da forma mais primitiva e irracional, como é o caso do voto impresso. Vejam que as eleições deste país, desde 1996, se faz com o voto eletrônico. De lá a esta parte, umas poucas mudanças pontuais, e vem funcionando quase à perfeição.

Milhares de mesários e presidentes de mesa, fiscais de partido, candidatos, programas ultra auditados de computador, tudo resultou em uma das nossas mais singulares e bem-sucedidas experiências. Nem mesmo o choro comum dos perdedores se ouviu nestes anos – ao menos no que diz respeito à fraude nas urnas.

A reclamação sobre a lisura do sistema veio de quem venceu cinco eleições de deputado federal e uma de presidente da República – ele a tirou do fundo da mente conturbada.

Todos têm o direito de postular o voto impresso, considerando-o mais seguro. Mas para ser implementado tem de seguir os trâmites da República. O lugar onde ele deve ser examinado é o Congresso. O que está distorcido é fazer de um conceito raso, comum, discutível, uma questão de Estado, com o presidente – e todo o aparato de governo – mobilizado 24 horas por dia, em estado de estupor patriótico, para vê-lo vencedor.

O voto impresso é uma questão menor, que só envolve polêmica por causa das obsessões presidenciais. A insistência destrambelhada do presidente dá razão aos seus oponentes: tudo se resume a um pretexto fútil para melar as eleições, se ele perder.

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