Tito Guarniere

Quem exporta mais em produtos de agropecuária, valor em dólares, o Brasil ou a Holanda? A resposta parece simples: a Holanda tem 42 mil km2, o Brasil mais de 8 milhões de km2. O Brasil é uma potência mundial exportadora de grãos e proteína animal. É o segundo exportador mundial em volume, atrás apenas dos Estados Unidos.

Surpresa: a pequenina Holanda, nem metade do território de Santa Catarina, exporta em dólares mais do que o Brasil, em produtos agrários. As exportações brasileiras ficam em torno dos U$ 90 bilhões, as holandesas em U$ 110 bilhões ao ano.

Qual é o segredo da Holanda? Para começo, o país está localizado numa confluência estratégica da Europa e mundo. O porto de Rotterdam há séculos é um dos portos mais movimentados do mundo. No porto holandês, a rigor, não há esforço braçal, tudo é operado por guindastes sofisticados e robôs de alta performance – por computador.

Não falta dinheiro para quem queira investir – amplas linhas de crédito e recursos fartos de instituições locais e do Mercado Comum Europeu. As empresas se instalam e produzem em ambiente amigável para os negócios, com regras tributárias simples e a mais completa segurança jurídica.

O uso da tecnologia aplicada à produção de itens de cultivo (como flores) e alimentos é a base do sucesso do modelo holandês de agropecuária sustentável. As políticas para o setor não mudam quando mudam os governos. Há investimentos maciços em pesquisa.

Os cérebros do prodígio holandês estão na Wageningen University & Researach-WUR, a mais prestigiosa instituição do mundo de investigação, pesquisa e métodos de produção agrária. Além da Holanda, mais de uma centena de países em todos os continentes se beneficiam da chamada “agricultura de precisão”, um conceito de excelência máxima do segmento – as linhas mestras são criadas nos estudos e nos experimentos da WUR.

Para a WUR, ciência e mercado andam juntos – nada parecido ao que acontece nas nossas instituições públicas de ensino superior, em que certos dirigentes (em geral advindos das ciências humanas e sociais) têm, mais do que desconfiança, resistência ativa e declarada a qualquer aliança da universidade com o setor produtivo e empresarial.

No exíguo território, nas estufas imensas, do tamanho de campos de futebol, computadores controlam água, luz, temperatura, umidade. As plantas não param de crescer nem durante a noite. Os pés de tomate chegam a alcançar a altura de 13 metros. Uma enorme embarcação abriga uma fazenda flutuante de 500 vacas leiteiras. Uma vaca holandesa produz quase 10 vezes mais leite do que uma brasileira.

A logística impecável permite que os laticínios, tomates e flores holandesas sejam colhidos e acondicionados em um dia, e em menos de 24 horas depois estejam nos mercados de Tokio, Nova York, Londres.

Valor agregado e produtividade são as palavras-chave desse prodígio de produção, que usa espaço físico cada vez menor e cada vez menos defensivos agrícolas.

No Brasil há exemplos isolados de excelência no uso de tecnologia nas atividades agropastoris. Alguma coisa já existe – mas estamos anos-luz atrás dos holandeses.

tito.guarniere@br.news

Twitter: @TitoGuarnieree