Do céu ao inferno

Estava no Brasil de malas prontas para visitar Lisboa no dia 10 de julho de 2016, o mais importante da história do futebol português. Naquele dia, sob o comando de Fernando Santos, a seleção portuguesa sagrou-se campeã da Europa sobre a França, contrariando todas as expectativas: jogando na casa do adversário – em Paris -, com Cristiano Ronaldo lesionado, vindo de uma campanha com pouco brilho e com o gol na prorrogação de um herói inesperado, o também inesquecível Éder.

O futebol é romântico e a campanha de Portugal naquela Euro, desde a fase de grupos até o jogo decisivo, com Éder deixando tantos franceses pelo caminho e arrematando de maneira desengonçada no cantinho de Lloris emanou a mística do jogo. A Seleção encarnou o espírito sofrido do povo lusitano, tão característico deste país pequenino escanteado geograficamente da Europa e finalmente campeão dela. Não à toa, um vídeo do gol de Éder em câmera lenta e ao som de um fado viralizou nos últimos cinco anos: ninguém esquecerá o que Fernando Santos e aquela geração conquistou.

Após o histórico título, Portugal se notabilizou por ver cada vez mais jogadores brilhando em grandes clubes europeus, o que deu a impressão de que 2016 foi só o começo de uma nova história para a Seleção. De lá para cá, jogadores como Bruno Fernandes, Diogo Jota, Bernardo Silva, João Cancelo e Rúben Dias passaram a ser alguns dos principais nomes da Premier League, a mais competitiva do mundo. Cristiano Ronaldo e Pepe, nomes mais experientes, mantiveram o nível mesmo com a idade avançada. Para além, claro, de mais jovens que surgiram neste meio tempo, como João Félix e Nuno Mendes, que já atuam em gigantes.

A expectativa, no entanto, não se confirmou. No Mundial de 2018, na Rússia, a Seleção foi precocemente eliminada pelo Uruguai logo nas oitavas de final. Apesar da eliminação dolorida, a equipe de Fernando Santos voltou a brilhar um ano depois, com o título da recém-criada Liga das Nações, que a colocou novamente como uma das favoritas ao Europeu de 2020 – realizado em 2021 por conta da pandemia.

Neste verão, mais uma decepção. Mesmo estando no famigerado “grupo da morte”, ao lado de França, Alemanha e Hungria, Portugal demonstrou menos do que poderia. Na primeira partida, contra os húngaros, uma vitória por 3 x 0 à Fernando Santos: o treinador começou a partida com William Carvalho e Danilo Pereira de titulares, demorou para alterar, e só nos últimos dez minutos viu sua equipe conseguir o resultado, com brilho de Rafa e Cristiano Ronaldo.

A dura derrota para a Alemanha e o empate com a França a seguir fizeram Portugal se classificar em terceiro colocado, e na fase seguinte, veio a Bélgica. Depois do intervalo daquele jogo, já com 1 x 0 para os belgas, Santos mais uma vez demonstrou falta de repertório, demorou a fazer as trocas, e o time só mostrou poder de reação nos últimos 15 minutos: não foi suficiente, e mais uma eliminação se consumou, desta vez com ainda mais frustração, com a sensação de que dava para chegar mais adiante com aquele grupo de jogadores e no último torneio europeu de Ronaldo pela seleção.

A pressão da torcida e imprensa sobre Fernando Santos se intensificou a partir daí. Muitos questionavam o porquê do trio campeão português com Sporting – Palhinha, Nuno Mendes e Pedro Gonçalves – não terem tido grandes oportunidades na equipe. O último, aliás, artilheiro do campeonato, não teve um minuto de jogo sequer na Euro. Santos sempre desconversou. Com seu ar confiante – até em excesso – o treinador disse antes do Europeu que levava tabaco para um mês ao sair de Portugal. Fumou tudo em dez dias. Depois da eliminação, na coletiva de imprensa, disse que ficava para conquistar o título mundial, frase essa reagida de uma boa gargalhada que presenciei por parte de alguns tasqueiros em Sesimbra no dia da partida contra a Bélgica.

No último domingo (14), a situação de Fernando Santos na Seleção Portuguesa passou a ficar ainda mais delicada. A derrota para a Sérvia por 2 x 1, em partida que bastava o empate para a classificação ao Mundial de 2022, fez com que Portugal tenha que ir aos playoffs buscar a vaga. O gol de Mitrovic, já nos acréscimos, caiu como um balde de água fria para os torcedores no lotado Estádio da Luz, e a pressão sobre o treinador agora é imensa, tanto de torcida, quanto de imprensa, e manter Santos como treinador para a fase de mata-mata pode ser uma decisão extremamente arriscada.

Ciclo no fim

Quem não parece pressionada é a Federação Portuguesa de Futebol, que até o momento da publicação deste texto, dois dias depois do confronto contra os sérvios, ainda não tomou qualquer decisão. Uma pena. A seleção de Fernando Santos joga mal, não mostra repertório, sofre demais e “queima” talentos. Cristiano Ronaldo e essa geração não merecem ficar de fora da Copa, e, mesmo que se classifiquem, o futebol português não pode se conformar com algo pouco acima da mediocridade no Catar.

Portugal se notabilizou nos últimos tempos por formar uma das maiores escolas de treinadores, e existem diversos nomes – sem clube ou não – que poderiam fazer um trabalho muito melhor na Seleção. André Villas-Boas, Luís Castro, Paulo Fonseca, Nuno Espírito Santo, Leonardo Jardim são alguns dos que estão sem clube no momento. Carlos Carvalhal, Abel Ferreira, Jorge Jesus são outros que estão empregados, mas dificilmente recusariam um convite da FPF. Embora tenham seus defeitos, todos os nomes listados tem algo em comum: uma carreira recente em clubes muito mais consolidada e relevante que o atual selecionador. Mesmo Rui Jorge, treinador da Seleção Sub-21, se mostraria uma melhor opção.

Fernando Santos, o engenheiro, fez história, com seu trabalho e com seu jeito às vezes caricato, às vezes sofredor lusitano. Como já dito, o futebol é romântico, e Santos é mesmo um desses personagens do mundo da bola. Mas mantê-lo no comando agora é esquecer o que essa geração ainda pode conquistar sob o comando de outro treinador, e romantizar em demasia o que já foi conquistado.

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