Wenderson Wanzeller - Opinião

Preconceito em Portugal

O preconceito em Portugal existe e, recentemente, quase fui vítima dele. Pois assim que um português vianense percebeu que eu tinha o sotaque brasileiro, xenofobicamente disparou: “vocês brasileiros estão bagunçando o nosso idioma”.

Com um misto de sentimento de raiva e curiosidade, perguntei: de que maneira estamos bagunçando o “seu” idioma? Ele respondeu: “tenho nojo dos portugueses que imitam brasileiros ao falar. Vocês é que devem nos imitar, não o contrário”.

Respondi conciliatoriamente que eu não percebia o que ele estava falando, pois eu tinha muitos amigos portugueses e nenhum deles me imitavam. Foi então que ele soltou a pior das pérolas: “eu duvido que você tenha algum amigo português. – Me calei!

Aqui vale uma ressalva:

Me calei, não porque me amedrontei. Me calei, não por ter me abalado. Me calei, não porque não sabia o que dizer. Simplesmente me calei porque, qualquer coisa que eu dissesse, pelas circunstâncias, deveria estar seguida de uma atitude mais drástica.

E como atitude, os leques não me eram restritos. Eu poderia responder as ofensas com a firmeza que ele merecia. Poderia chamar a polícia. Ou até mesmo expô-lo, dentro do que me é permitido pelo código deontológico de jornalista, para que ele servisse de exemplo negativo.

Mas, como eu estava na santa paz de Deus, pescando na ponta do Cabedelo da belíssima cidade de Viana do Castelo, onde tenho o privilégio de residir. Preferi devolver-lhe um sorriso sem graça e dar por encerrado o assunto. Só que, por incrível que pareça, ele continuou:

Sabe porque você não tem nenhum amigo português? – Disse ele enfaticamente.

Olhei fixamente para ele e, com calma, respondi: não sei, me diga lá o senhor.

Então, com a convicta certeza que lhe era peculiar, afirmou: porque nenhum português presta. Diferente dos brasileiros, os portugueses não fazem amigos de verdade.

Foi então que me lembrei do saudoso dramaturgo Ariano Suassuna. Pois sempre que ele tinha oportunidade, com grande e imenso sorriso, exclamava: eu gosto de gente doida.

Pois é, penso que tomei a atitude correta ao me conter. Claro que havia ali nuanças claras de preconceito. Mas, no fundo, tratava-se apenas de alguém amargurado, com grandes dificuldades retóricas e que possivelmente agradaria muito ao Suassuna.

Imbecis e inconvenientes existem em todo lugar do mundo. Sei que algumas pessoas mais suscetíveis poderiam ter ficado arrasadas diante do episódio que vivi. E, respaldadamente, o desenrolar da história poderia ter sido completamente diferente.

Eu, particularmente, sou da opinião que os portugueses, parafraseando aqui o Presidente Marcelo de Sousa, são de fato nossos irmãos. Não devemos, portanto, agirmos com o estigma de vítimas.

O preconceito, tanto no Brasil como em Portugal, existe. E claro, como tal, deve ser exemplarmente denunciado e punido.

Contudo, também afirmo que, de forma recíproca e em sua esmagadora maioria: os portugueses nos adoram.

E eles são, de fato, nossos irmãos!

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