Tito Guarniere - Opinião

TITO GUARNIERE

Lula está eleito e seu governo está em formação. Não votei nele no primeiro turno. Ainda tenho para mim que Bolsonaro, além de um péssimo governante, além de não ser chegado ao batente, e da vocação para a mentira e a encrenca, é a uma ameaça para a democracia. Ou seja, o meu apoio a Lula no segundo turno não se deu por afinidade, não foi escolha firme e pensada, mas porque a alternativa era muito pior.

Minhas restrições a Lula não eram por causa da corrupção. Enquanto ele não for condenado pela Justiça, ou enquanto se mantiver a decisão de anulação dos seus julgamentos, no estado de Direito, prevalece a teoria da presunção de inocência. Eu, todos nós, podemos ter dúvidas sobre a sua honestidade, e temos do direito de não votar nele por isso. Porém o juízo moral, ético e político é diferente da condenação judicial. Tanto é assim que a lei lhe permitiu concorrer em 2022 – da mesma forma que o impediu de ser candidato em 2018.

Mas não aposto no governo Lula, a não ser nos estritos limites dos meus motivos. Comecei a ter razão muito cedo, antes mesmo da posse. As suas declarações sobre os limites de gastos e sobre a responsabilidade fiscal denunciam que em todos estes anos ninguém, lhe informou – e nem ele descobriu por si- sobre o valor intrínseco do equilíbrio entre o que o Estado gasta e o que ele arrecada.

Quando Lula se refere a “essa tal” responsabilidade, revelando seu desprezo pelo conceito, dá mostra do seu desconhecimento, a sua ignorância a respeito. Ele está parado em uma página vencida da teoria econômica, segundo a qual a responsabilidade fiscal é um truque, uma artimanha das elites econômicas, dos endinheirados, em favor dos seus próprios interesses, para melhor saquear os recursos do Estado.

Sim, tais elites promovem com frequência o saque dos recursos do Estado. Mas isso não significa que – necessariamente – o equilíbrio fiscal seja um instrumento diabólico para que eles (os ricos) ganhem sempre, como em um jogo de cartas marcadas.

Trata-se de uma equação razoavelmente simples: para gastar mais na melhoria de vida dos desvalidos, dos mais pobres, é preciso ter mais recursos. Se não há correspondência razoável entre o que se dispende e o que se arrecada, então em algum momento as contas se desarrumam. As consequências – aquelas que vêm depois – são devastadoras : inflação, desemprego, juros altos, crise econômica, menos recursos para a educação, saúde, segurança pública.

Não tem essa de que “um pouco de inflação não faz mal a ninguém “. Faz. O processo inflacionário já é uma disfunção, um desajuste, um descontrole. Um pouco de descontrole não gera controle, tende a mantê-lo e agudizá-lo até o desastre. Quem paga a conta? Os que mais necessitam da ação e da assistência do Estado, os desvalidos, os pobres..

Não fosse assim tudo se resolveria com uma boa máquina impressora e rolos de bom papel: fazer a guitarra da emissão de dinheiro tocar, cobrir os custos e os gastos do Estado com moeda tinindo de nova. Surpreende, de todo o modo, que Lula desconheça ou menospreze tão elementar realidade.

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