Tito Guarniere - Opinião

Tito Guarniere

A estas alturas, faltando pouco mais de um mês para as eleições de 2 de outubro, tudo parece caminhar para uma disputa final entre Lula e Bolsonaro. Está longe da disputa que eu gostaria. Mas até hoje , depois da redemocratização, nenhum presidente da República se elegeu com o meu voto. Poderia dizer que não “acertei” nenhuma.

Me ocupo, pois, apenas das entrevistas dos dois principais oponentes no Jornal Nacional.

Bolsonaro apresentou-se pouco à vontade, com a cara de poucos amigos e o corpo tenso, às vezes com a expressão de quem iria detonar tudo, botar para quebrar – contendo-se, todavia, a tempo. Alguém fora do âmbito de sua influência dificilmente guardaria daquele discurso e performance algo que pudesse aproveitar.

Ele não expõe ideia, projeto, programa. Tudo nele é parcial, limitado, superficial. Não há nele nenhum vestígio de simpatia, de apreço ou deferimento em relação aos apresentadores e aos milhões de espectadores que o acompanharam.

Os seus fãs e eleitores gostam dele mesmo assim. Justificam dizendo que ele tem o jeito e o estilo das pessoas simples, e que quando ele extrapola e vaza certos limites de civilidade, é em resposta ao tratamento que lhe dispensam os jornalistas em geral e os adversários.

Mas o fato é que Bolsonaro não agregou nada ao seu potencial, não mudou voto, não persuadiu ninguém com aquele desempenho. Se o plano era consolidar de vez o contingente de eleitores e simpatizantes que o apoiam, dá para dizer que ele foi bem sucedido. Mas nada além disso.

E Lula? Há notáveis diferenças. O candidato começou tenso, mas logo se recompôs e a partir daí nadou de braçadas. Não é verdade que William Bonner e Renata Vasconcellos pegaram mais leve com ele. O que ocorreu é que Lula – experiente e malandro – soube dissipar o clima de possível beligerância, transformando-o em diálogo duro, firme, porém elevado.

Em pelo menos duas vezes ele sorriu e fez graça. Em quatro ou cinco vezes mencionou seu vice Geraldo Alckmin, um político que exala moderação e civilidade. Tratou com respeito os entrevistadores e argumentou de forma simples e linear, ao nível do entendimento geral e popular, de que sempre foi um especialista. O modelito pode estar um pouco gasto, mas ainda funciona.

Lula se apresentou como um candidato menos propenso ao conflito. Nada de ressentimento ou amargura. Não parece disposto, se for eleito, atravessar a rua para comprar briga com o transeunte. Fez certas concessões até então impensáveis, como reconhecer que houve corrupção no seu governo, e “en passant” até ensaiou críticas (leves, bem leves) aos regimes autoritários de esquerda.

Dizendo de outro modo, Lula (ao que parece) escolheu marcar território das diferenças entre ele e Bolsonaro. Com o Lula do JN voltou uma certa aragem ao debate eleitoral. Jogou bem com a vantagem de ter falado depois do presidente.

Então Lula venceu? Sim, venceu e bem, muito bem. Não foi, como assinalou um observador perspicaz, uma vitória por nocaute. Mas uma folgada vitória por pontos.

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